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Paralisia de Bell: o que é, por que ocorre e como é tratada

Fraqueza súbita de um lado da face causada por disfunção do nervo facial; corticoterapia oral iniciada precocemente aumenta a probabilidade de recuperação completa.

Equipe Falando de SaúdePublicado em 5 min de leitura

Paralisia de Bell: o que é, por que ocorre e como é tratada

A paralisia de Bell é uma paralisia periférica aguda do nervo facial (VII) que provoca fraqueza ou paralisia de um dos lados da face. O quadro costuma surgir de forma súbita e resulta, em muitos casos, de edema e inflamação do nervo que o comprimem no canal ósseo por onde ele passa. A incidência anual é estimada em cerca de 20–30 por 100.000 habitantes.[1]

Causas e fatores de risco

Em grande parte dos casos a paralisia é classificada como idiopática (não encontrada outra causa definida). Entre as hipóteses etiológicas mais aceitas está a reativação de vírus neurotrópicos, especialmente o herpes simplex vírus tipo 1 (HSV‑1) e, em alguns pacientes, o varicella‑zoster (VZV), associada a inflamação local do nervo.[3] Fatores associados a maior risco incluem diabetes e gravidez; a incidência é maior na meia‑idade, mas pode ocorrer em qualquer faixa etária.[2]

Sintomas típicos e sinais de alerta

O início costuma ser rápido, com fraqueza unilateral que progride em horas a poucos dias e normalmente envolve a porção superior (testa) e inferior da face — o envolvimento da testa ajuda a distinguir lesão periférica de uma lesão central (por exemplo, acidente vascular cerebral), que tende a poupar a testa. Sintomas associados frequentes são dor retroauricular no início, alteração do paladar, hipersensibilidade a sons no lado afetado e dificuldade para fechar o olho do lado paralisado.

Procure avaliação imediata quando houver: fraqueza em ambos os lados da face; outros déficits neurológicos (fraqueza de membros, alteração da fala, confusão); início progressivo ao longo de vários dias (em vez de horas); ou erupção/vesículas na orelha ou no conduto auditivo (sugerindo reativação por VZV). Essas situações exigem investigação adicional para excluir causas alternativas.

Diagnóstico e exames quando indicados

O diagnóstico de paralisia de Bell é clínico, baseado em história e exame neurológico focalizado no padrão de fraqueza facial. Na apresentação típica e na ausência de sinais que sugiram outra doença, exames de imagem e laboratoriais geralmente não são necessários. Exames que podem ser indicados em apresentações atípicas ou quando há fatores de risco incluem glicemia e hemoglobina glicada (rastreamento de diabetes), sorologia para doença de Lyme em áreas endêmicas e imagem (TC ou RM) se houver suspeita de processo estrutural ou comprometimento central.[2]

A electroneuromiografia (ENoG/EMG) pode ser útil em fases específicas: depois das primeiras 2–3 semanas permite estimar a extensão de perda axonal e ajudar na previsão de recuperação ou na decisão por intervenções adicionais em casos graves ou que não evoluem bem.[4]

Tratamento inicial e cuidados com o olho

A evidência clínica indica benefício da corticoterapia oral quando iniciada precocemente: pacientes tratados nas primeiras 72 horas têm maior probabilidade de recuperação completa do que os não tratados.[1][5] Regimes usados em estudos e diretrizes incluem prednisona ou prednisone na faixa de 50–60 mg por dia por cerca de 5 dias seguido de redução gradual; esquemas podem variar conforme avaliação clínica e comorbidades, e a prescrição deve ser individualizada.[2]

O papel dos antivirais isolados é limitado; estudos mostram que antivirais sozinhos não melhoram resultados clínicos de forma consistente. A associação de antiviral com corticosteroide pode trazer benefício adicional modesto em alguns cenários, especialmente em apresentações mais graves, mas a magnitude do efeito é pequena segundo revisões recentes. Nos estudos, posologias frequentemente empregadas foram valaciclovir 1 g três vezes ao dia por 7 dias ou aciclovir 400 mg cinco vezes ao dia por 10 dias quando antivirais são usados.[2][3]

A proteção ocular é essencial quando o paciente não fecha completamente a pálpebra: lubrificantes (lágrimas artificiais) durante o dia, pomada lubrificante à noite e, se necessário, proteção física (curativo ou fita) durante o sono para prevenir ceratite por exposição. Avaliação oftalmológica é indicada se houver risco de lesão de córnea ou sintomas oculares marcantes.

Medidas de reabilitação, como exercícios faciais e a chamada mime therapy, podem ajudar pacientes com recuperação incompleta a melhorar função e simetria; em casos de sinquinesia (movimentos involuntários associados à recuperação) a injeção de toxina botulínica em músculos selecionados pode reduzir contrações indesejadas. A descompressão cirúrgica do nervo facial tem evidência limitada e não é indicada de rotina.[5][6]

Prognóstico, complicações e encaminhamento

A maioria dos pacientes melhora significativamente sem intervenção específica: estima‑se que cerca de 70–80% recuperem‑se completamente; crianças e gestantes tendem a ter taxas de recuperação maiores, que relatórios e revisões indicam poder chegar a aproximadamente 90% em algumas séries.[2][4] Os sintomas costumam atingir o pico na primeira semana; a melhora geralmente inicia nas semanas seguintes, muitos pacientes apresentam recuperação substancial em até 3 meses, e a recuperação pode continuar por 6–12 meses em alguns casos.[6]

Complicações possíveis incluem fraqueza residual, contratura muscular e sinquinesia. Encaminhe para avaliação especializada (neurologia, otorrinolaringologia ou reabilitação) quando houver: paralisia completa e marcada ao início, piora progressiva, ausência de melhora após 3–4 semanas, achados atípicos ou necessidade de investigação/terapias específicas (ENoG/EMG, injeção de toxina botulínica, avaliação cirúrgica em casos muito selecionados). Avaliação oftalmológica urgente é necessária sempre que houver risco de lesão da córnea por fechamento incompleto das pálpebras.

Se você notar fraqueza facial súbita, procure atendimento médico para confirmar o diagnóstico, proteger o olho e avaliar a necessidade de tratamento medicamentoso precoce. O manejo e o seguimento oportunos ajudam a reduzir riscos e tratar complicações quando presentes.

Referências

  1. Dalrymple SN, Row JH, Gazewood JD. Bell’s Palsy. Prim Care. 2025;52(1):111-121.
  2. Dalrymple SN, Row JH, Gazewood J. Bell Palsy: Rapid Evidence Review. Am Fam Physician. 2023 Apr;107(4):415-420.
  3. Holland NJ, Bernstein JM. Bell’s palsy. BMJ Clin Evid. 2014 Apr 9;2014:1204.
  4. Prud’hon S, Kubis N. [Bell’s palsy]. Rev Med Interne. 2019 Jan;40(1):28-37.
  5. Reich SG. Bell’s Palsy. Continuum (Minneap Minn). 2017 Apr;23(2):447-466.
  6. Tiemstra JD, Khatkhate N. Bell’s palsy: diagnosis and management. Am Fam Physician. 2007 Oct 1;76(7):997-1002.

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